A ARTE DE COLECIONAR ARTE

Texto: Sandro Tôrres

“O colecionismo é a prática que as pessoas têm de guardar, organizar, selecionar, trocar e expor diversos itens por categoria, em função de seus interesses pessoais. Em todo o mundo, milhões de colecionadores organizam as mais diversas coleções de objetos.”  Wikipedia falou, quem sou eu para discordar?

Como é bom para garotos e garotas ostentar seus itens de coleção, suas figurinhas, seus bonés, suas bonecas, seus carrinhos;

A questão que acomete muitos é quase uma ideia geral de como pode ser possível colecionar um item tão caro?

E a conceituação no site de busca não para por aí; tem sub definições. Aí é que entra a parte interessante, quando decupamos a palavra e seu conceito. Quando levamos para o campo das artes, o tema adquire uma dimensão colossal. Não apenas do ponto de vista teórico, do que é ou deixa de ser. Mas também da possibilidade da dilatação dessa premissa de reunir itens por algum motivo, seja por afeto, por prestígio, por conhecimento ou mero hábito. Agrupar coisas semelhantes sempre conferiu à humanidade uma sensação de ordem, de bem estar. Veja o exemplo do estímulo do colecionismo nas crianças, conduzindo-as ao lugar lúdico de pertencimento, de identidade. Como é bom para garotos e garotas ostentar seus itens de coleção, suas figurinhas, seus bonés, suas bonecas, seus carrinhos; como é bom compartilhar essa experiência com outro aficionado do mesmo tema.

Compreender de uma vez por todas, sem o questionamento usual, o quão necessário pode ser possuir ou consumir peças de arte para determinadas pessoas

A questão que acomete muitos é quase uma ideia geral de como pode ser possível colecionar um item tão caro? Acontece que o valor da arte não está relacionado à frieza de quanto custa em dinheiro de forma comparativa com outros itens, mas com a importância que esse item pode ou não ter na sua vida. Para os que são capazes de pagar muito em itens eleitos (por motivos vários), sugiro procurar compreender de uma vez por todas, sem o questionamento usual, o quão necessário pode ser possuir ou consumir peças de arte para determinadas pessoas. Aqui evocaríamos o conceito de arte, mas nenhum deles coloca a arte no lugar de elemento utilitário, portanto, não cabe comparativos com outros objetos ou ideias menos abstratos. Cabe sim o respeito, o reconhecimento, a informação. Arte vale e pronto; não cabe questionamento. Sobre valer mais ou menos, isso é com os profissionais das artes: artistas, professores, curadores, galeristas, diretores de instituições culturais, marchands, colecionadores. E mesmo eles poderão devolver a abstração como resposta. Isso não quer dizer que o produto artístico não pode ser aferido ou avaliado para que se estabeleça valor. Claro que há formas objetivas e subjetivas de precificar arte.  Mas também há, para esses profissionais mencionados, a responsabilidade com o aspecto umbrátil do tema. Tem-se que levar em consideração até as definições de uso do objeto de arte questionado.

Usa-se a palavra arte para expressar ênfase sobre alguma ação ou resultado plástico considerado bem sucedido ou destacado

              Voltando ao colecionismo, a sugestão é, após a definição do tamanho da importância da arte em sua vida, estabelecer de início algumas mínimas regras, que podem ser de ordem organizacional ou apenas afetiva. Por exemplo, a religião tem espaço relevante em sua vida? Dê às peças com esse tema a ênfase que merece. Outro exemplo: é um grande admirador das obras com técnicas e suportes tradicionais? Escolha-os, destaque-os e agrupe-os. Uma premissa de coleção é o quantitativo, portanto, deve-se ter por onde começar. Eleger o tipo de característica que terá sua coleção é uma preocupação para um segundo momento.  Não sei quantos estágios existem na prática do colecionismo, mas posso afirmar que o prazer aumenta à medida que sobe de fase.

              Não é raro alguém possuir uma coleção de arte reunida por outra pessoa (herança, por exemplo) e, consultando, se decepcionar com o valor das peças. Esse é, talvez, o melhor exemplo do preço que se paga pela falta de critérios nas escolhas e nos leva a outro ponto: o valor da obra não é necessariamente o quanto se paga por ela. E nos leva também àquele ponto do texto que mencionei a importância dos profissionais no currículo do artista e da obra. “Ah, mas se alguém já tivesse me dito isso!” Possivelmente tentaram. Com exposições, com livros, com com museus, com galerias, com programas de TV, com jornais impressos, com espaços culturais ou talvez com o mais elementar: a arte em si.

              Sobre o título do texto “A arte de colecionar arte”, colecionar com critério e denodo, a ponto de tornar evidente o senso de harmonia e/ ou artístico, chega a ser uma forma de manifestação prática da estética. Usa-se a palavra arte para expressar ênfase sobre alguma ação ou resultado plástico considerado bem sucedido ou destacado. Ou seja, algo diretamente associado ao belo ou às habilidades técnicas são, para o senso comum, algo artístico. Não é uma total inverdade, mas não pode jamais resumir o conceito.           

              Veja pelo lado bom: não há momento certo para iniciar uma coleção de arte. O que sabemos que há é um mundo de possibilidades para ser explorado e uma indescritível sensação de bem estar pra ser vivida. Um conselho que talvez Oscar Wilde ratificasse: resista a tudo, menos à tentação de ter arte!

Sandro Tôrres. Diletante e confuso, porém criativo.

Graduado em Direito e Artes Visuais, mestrado em História (UFG). Carreira plural, com incursões pela literatura, cinema, publicidade, TV, artes visuais; é autor de dois livros (além das antologias): “Essa Tal Arte Contemporânea” (ensaio, 2012) e “Digo que Sim” (poesias, 2016); ensaísta da Revista Zelo desde 2010.

Me História/UFG

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